Investir em Startups: o que é, como funciona e quais são as principais plataformas no Brasil

Maria Mariana Barbosa Mendes

Nesse cenário crescente de startups, o interesse de investidores pelo setor também cresceu, impulsionado pela regulação mais acessível e pelo surgimento de plataformas digitais que democratizaram o acesso a esse tipo de ativo.

Este artigo apresenta os conceitos básicos de investimento em startups no Brasil: o que é, como funcionam as modalidades disponíveis, quais plataformas operam no mercado, quais características costumam ser avaliadas antes de um aporte e como funciona o acesso a startups internacionais. Acompanhe.

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O que é uma startup e por que ela atrai investidores?

Uma startup é uma empresa em estágio inicial, geralmente estruturada em torno de um modelo de negócios escalável e com forte componente tecnológico. Ao contrário de um negócio tradicional, que cresce linearmente, com custos proporcionais ao aumento da receita, uma startup é desenhada para crescer de forma exponencial, sem necessariamente ampliar os custos na mesma proporção.

Essa característica é o que diferencia, por exemplo, uma padaria de bairro de uma plataforma de pagamentos digitais: a padaria tem crescimento limitado pela capacidade física; a plataforma pode atender milhões de usuários com a mesma infraestrutura.

Empresa TradicionalStartup
Crescimento linearCrescimento potencialmente exponencial
Modelo de negócio consolidadoModelo ainda em validação ou escala
Receita previsívelReceita inicialmente incerta, potencialmente disruptiva
Risco de falência total moderadoAlto risco operacional nos primeiros anos
Liquidez maior (em alguns casos)Baixa liquidez da participação

Para o investidor, o atrativo das startups está na assimetria de retorno: o risco é elevado, mas o potencial de ganho pode ser múltiplo do valor investido. Empresas como Nubank e iFood são exemplos brasileiros que, em seus primeiros estágios, eram acessíveis a um grupo restrito de investidores e geraram retornos expressivos para quem participou cedo.

Como funciona o investimento em startups?

Uma startup passa por diferentes estágios ao longo da sua vida. Cada fase tende a ter características distintas em termos de maturidade, risco e tipo de investidor envolvido.

  • Pré-seed: fase embrionária, com recursos geralmente oriundos dos próprios fundadores, familiares ou amigos próximos.
  • Seed: primeira rodada formal de captação. Participam investidores-anjo, aceleradoras e alguns fundos de venture capital especializados em estágios iniciais.
  • Série A, B, C e além: rodadas progressivas, com participação de fundos de venture capital e private equity. A empresa já tem tração validada e busca capital para escalar.
  • Exit: evento de saída — pode ocorrer por aquisição (M&A), oferta pública inicial (IPO) ou venda de participação em rodada futura.

⚠️ Este conteúdo é estritamente de natureza informativa. Não constitui e não deve ser interpretado como aconselhamento financeiro, orientação de investimento, recomendação de compra ou venda de quaisquer ativos financeiros, ou solicitação para realizar qualquer transação. Para receber instruções sobre sua situação específica, consulte um profissional qualificado ⚠️

Para o investidor pessoa física no Brasil, existem três caminhos principais de acesso:

ModalidadePerfil Geral do InvestidorAporte Mínimo Típico
Equity CrowdfundingVarejo / público em geralA partir de R$ 100 a R$ 5.000
Fundo de Investimento em Participações (FIP)Investidor qualificado (mín. R$ 1 mi)Varia conforme o fundo
Investimento-Anjo DiretoRede própria / negociação diretaNegociável entre as partes

Equity Crowdfunding

O equity crowdfunding é a modalidade mais acessível ao público em geral. Funciona por meio de plataformas digitais autorizadas pela CVM, nas quais startups ofertam participação societária ou instrumentos conversíveis a um grupo amplo de investidores, em troca de capital. O investidor adquire uma fração da empresa — geralmente via nota conversível ou contrato de promessa de emissão de ações — e passa a participar dos resultados conforme o desempenho do negócio.

Fundos de Investimento em Participações (FIP)

Os FIPs são veículos coletivos geridos por gestoras especializadas em capital de risco e private equity. A adesão exige que o investidor seja qualificado (com ao menos R$1 milhão em investimentos financeiros, conforme a regulação da CVM) e que assine um termo reconhecendo essa condição.² A vantagem é a gestão profissional e a diversificação em múltiplas startups dentro de um único fundo.

Investimento-Anjo

O investimento-anjo envolve uma relação direta entre o investidor e a startup. No Brasil, essa modalidade é regulada pela Lei Complementar nº 155/2016, que criou o marco legal para esse tipo de aporte. A lei estabelece, entre outros pontos, que o investidor-anjo não é responsável pelas dívidas da empresa (proteção patrimonial) e pode ser remunerado em até 50% dos lucros distribuídos por um prazo máximo de 5 anos, sendo que o direito ao resgate do capital aportado só pode ser exercido após dois anos do aporte.³

O que diz a regulação brasileira? O papel da CVM

O principal marco regulatório do equity crowdfunding no Brasil é a Resolução CVM nº 88, publicada em 27 de abril de 2022. Ela revogou a Instrução CVM nº 588, de 2017, e atualizou as regras para a oferta pública de valores mobiliários de sociedades empresárias de pequeno porte por meio de plataformas eletrônicas de investimento participativo.⁴

Entre os elementos centrais da regulação, estão:

  • Limite de captação por oferta: as empresas podem captar até R$15 milhões por rodada (considerando o faturamento bruto anual de até R$40 milhões), conforme os termos da resolução.⁵
  • Limite de investimento para investidores de varejo: investidores que não se enquadram como qualificados ou que não possuem renda anual ou carteira de investimentos superiores a R$100 mil estão sujeitos a um teto de R$20 mil por ano no total de ofertas da mesma plataforma.
  • Plataformas autorizadas: somente plataformas devidamente registradas e autorizadas pela CVM podem intermediar esse tipo de oferta. A lista de plataformas autorizadas é pública e disponível no site da autarquia.
  • Prazo de captação: as rodadas têm prazo máximo de 180 dias para atingir o valor mínimo estipulado.

A resolução também previu proteções ao investidor: caso a captação não atinja dois terços da meta estabelecida, os valores aportados são devolvidos aos investidores ao final do prazo. Esse arcabouço regulatório foi um passo importante para ampliar a segurança jurídica do setor e aumentar o número de investidores com acesso a esse tipo de ativo no país.

Plataformas para investir em startups no Brasil

Com a regulação estabelecida e o mercado em expansão, diversas plataformas passaram a operar no Brasil como intermediadoras de investimentos em startups. Abaixo, uma visão descritiva das principais:

PlataformaModelo PrincipalAporte MínimoRegulação CVMDiferencial
EqSeedEquity crowdfundingA partir de R$ 5.000SimCuradoria rigorosa (menos de 1% aprovadas); suporte ao investidor
CaptableCrowdfunding + Secundário + DívidaA partir de R$ 1.000SimMarketplace de liquidez secundária; portfólio diversificado
MB StartupsCrowdfunding via BlockchainA partir de R$ 100SimTokenização de participações; ecossistema Mercado Bitcoin
Anjos do BrasilRede de investidores-anjoNegociávelNão se aplicaComunidade educacional e conexão para investimento direto

EqSeed

A EqSeed é uma das plataformas pioneiras no mercado brasileiro de equity crowdfunding. Conta com mais de 92.000 contas abertas, R$129 milhões em investimentos realizados e 86 ofertas concluídas. O retorno médio dos exits registrados na plataforma é de mais de 40% ao ano, em prazo médio de 2,5 anos — número que reflete os casos bem-sucedidos, sem garantia de repetição para novos aportes.⁶ A plataforma adota um processo de seleção rigoroso: menos de 1% das startups que se candidatam para captação são aprovadas.

Captable

A Captable é descrita como a maior plataforma de investimento em startups do Brasil e a que mais cresce em operações de dívida alternativa. Seus números incluem mais de R$608 milhões investidos, mais de 9.000 investidores ativos e 105 captações concluídas.⁷ Um diferencial relevante da Captable é o seu Marketplace, que permite a negociação secundária de participações entre investidores. Isso oferece uma camada de liquidez que não está disponível na maioria das plataformas do setor.

MB Startups (Mercado Bitcoin)

O MB Startups é a vertical de crowdfunding do Mercado Bitcoin, integrante do Grupo 2TM. A plataforma utiliza tecnologia de tokenização em blockchain para registrar as participações dos investidores, o que, segundo a empresa, torna o processo mais ágil e transparente. O aporte mínimo a partir de R$100 posiciona o MB Startups entre as plataformas com menor barreira de entrada do mercado.

Anjos do Brasil

A Anjos do Brasil é uma rede sem fins lucrativos voltada ao fomento do investimento-anjo no ecossistema de startups brasileiro. Atua como comunidade educacional, com eventos, conteúdo e conexão entre investidores e empreendedores. Não se trata de uma plataforma de captação direta, mas de um ponto de referência para quem busca entender e praticar o investimento-anjo no país.⁹

BB Startups (Banco do Brasil)

O Banco do Brasil mantém um programa voltado à conexão entre startups inovadoras e seu ecossistema corporativo e financeiro. A iniciativa tem foco em startups com soluções relevantes para o setor financeiro e agronegócio, entre outros. O modelo difere das plataformas de crowdfunding: trata-se mais de um programa de parceria e aceleração do que de um canal de investimento direto para pessoa física.¹⁰

O que avaliar antes de investir em uma startup?

Investidores experientes no segmento de startups costumam considerar um conjunto de fatores antes de realizar um aporte. Não há uma fórmula universal, mas os aspectos abaixo aparecem com frequência nos processos de avaliação:

  1. O problema resolvido e o tamanho do mercado: uma startup que resolve um problema real, em um mercado endereçável amplo, tende a ter maior potencial de escala.
  2. A equipe fundadora: a experiência, a complementaridade de habilidades e o histórico do time são fatores amplamente considerados. Startups com equipes que já passaram por desafios similares costumam ser avaliadas com atenção diferenciada.
  3. Tração inicial: métricas como crescimento de receita, base de usuários, taxa de retenção e volume de transações oferecem evidências concretas de que o produto tem demanda real.
  4. Modelo de negócio e caminho para a rentabilidade: entender como a empresa gera ou pretende gerar receita, e em que prazo o modelo se torna sustentável, é parte central da análise.
  5. Valuation da rodada: a avaliação de se o valuation praticado na oferta é compatível com o estágio da empresa é um exercício que exige comparação com empresas similares.
  6. Estrutura jurídica e transparência contábil: nas plataformas reguladas pela CVM, as ofertas passam por análise jurídica e contábil, o que oferece uma camada adicional de verificação.

Riscos e características do investimento em startups

O investimento em startups é classificado como de alto risco e possui características únicas que o diferenciam de outras classes de ativos tradicionais.

  • Iliquidez: diferentemente de ações listadas em bolsa, a participação em uma startup não tem mercado de negociação imediato. O investidor geralmente precisa aguardar um evento de saída (exit) para converter o ativo em dinheiro.
  • Risco de perda total: muitas startups não conseguem atingir o breakeven ou escalar o modelo de negócio. Nesse cenário, o investidor pode perder a totalidade do valor aportado. O limite da perda, no entanto, é o valor investido — não há risco de saldo negativo.
  • Prazo longo: retornos costumam se materializar em horizontes de 3 a 7 anos ou mais, a depender do ciclo da empresa. Esse é um ativo que não se adequa a objetivos de curto prazo.
  • Diluição: novas rodadas de captação pela startup podem diluir a participação do investidor inicial, caso ele não exerça o direito de preferência. A diluição não é necessariamente negativa, pois um novo aporte pode aumentar consideravelmente o valuation global da empresa.
  • Assimetria de informação: investidores de varejo em geral têm acesso a menos informações do que fundos profissionais. Nas plataformas reguladas, os prospectos e relatórios periódicos são disponibilizados, mas o nível de profundidade pode variar.

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Startups internacionais: como funciona o acesso para brasileiros?

Parte do ecossistema de startups mais relevante do mundo está nos Estados Unidos, especialmente no Vale do Silício. Nomes como OpenAI, Anthropic e SpaceX — empresas privadas com valuations bilionários — despertam interesse crescente de investidores brasileiros.

No mercado local, algumas plataformas já criaram produtos com exposição internacional. A Captable, por exemplo, oferece o "Pool Bossa Brasil & EUA", uma rodada que permite ao investidor ter exposição simultânea a unicórnios americanos e a startups brasileiras em uma única operação.⁷

Para quem busca acessar plataformas internacionais diretamente — como AngelList, Republic ou Seedrs —, abrir uma conta no exterior para investir é uma das etapas operacionais comuns nesse processo. Além disso, a transferência internacional de recursos é uma etapa natural do fluxo: o investidor brasileiro precisa enviar moeda estrangeira para uma conta no exterior, o que envolve conversão cambial e remessa para fora do país.

Para quem cogita acessar plataformas nos Estados Unidos especificamente, entender como funciona a transferência de dinheiro para os EUA — incluindo as tarifas, o IOF aplicável à remessa e os prazos envolvidos — costuma ser uma etapa preparatória relevante. Serviços especializados em câmbio e transferências internacionais são frequentemente utilizados nesse fluxo, pela combinação de transparência nas taxas, agilidade e custo competitivo em relação aos canais bancários tradicionais.

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Perguntas frequentes

Qualquer pessoa pode investir em startups no Brasil?

Em geral, sim — especialmente por meio de plataformas de equity crowdfunding reguladas pela CVM. A Resolução CVM nº 88/2022 permite que qualquer investidor pessoa física participe de rodadas, desde que respeite os limites estabelecidos pela regulação (como o teto de R$20 mil por ano para investidores de varejo sem enquadramento como qualificados). Para FIPs, é necessário ser investidor qualificado, com ao menos R$1 milhão em investimentos financeiros.

Qual é o valor mínimo para investir em uma startup?

Varia conforme a plataforma e a oferta. No MB Startups, o aporte mínimo pode partir de R$100. Na Captable, o mínimo por rodada tende a ficar entre R$1.000 e R$3.000. Na EqSeed, as ofertas geralmente têm aporte inicial a partir de R$5.000. O investimento-anjo direto é negociado caso a caso, sem um piso formal definido por lei.

Como funciona o retorno do investimento em startups?

O retorno pode ocorrer de diferentes formas: pela venda da participação em um evento de exit (aquisição por outra empresa, IPO ou venda em mercado secundário), pela distribuição de dividendos (menos comum, dado o perfil de crescimento das startups em estágios iniciais) ou pela conversão da nota em ações em rodadas futuras, com valorização do valuation. Não há garantia de retorno em nenhuma dessas hipóteses.

Investir em startup é seguro?

O investimento em startups é uma modalidade de renda variável classificada como de alto risco. Nas plataformas reguladas pela CVM, há exigências de transparência e due diligence que oferecem uma camada de proteção ao investidor. No entanto, o risco de perda total do capital investido é uma possibilidade real e deve ser considerado como parte da natureza desse tipo de ativo.

Quanto tempo leva para ter retorno em um investimento em startup?

O prazo médio para um evento de exit, quando ele ocorre, é geralmente de 3 a 7 anos a contar do aporte inicial. Na EqSeed, o prazo médio dos exits realizados foi de cerca de 2,5 anos — mas esse número reflete os casos bem-sucedidos. Em alguns casos, a startup pode levar mais de uma década para gerar liquidez ao investidor, ou não gerar retorno algum.

O mercado brasileiro de investimento em startups amadureceu de forma significativa na última década. A combinação de regulação mais clara, plataformas digitais acessíveis e um ecossistema de inovação em expansão criou condições para que um número crescente de investidores explore essa classe de ativos. Ao mesmo tempo, as características intrínsecas desse tipo de investimento — risco elevado, longo prazo, iliquidez — continuam sendo variáveis centrais na equação. Para quem acompanha o cenário de perto, a tendência é de que o acesso a startups, inclusive internacionais, continue se ampliando nos próximos anos.

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Fontes (consultadas em 26/06/26)

  1. Liga Ventures / Distrito — Inside VC 2024 — dados sobre movimentação do mercado de startups no Brasil em 2024 (R$ 13,9 bilhões, 366 negócios, 132 M&As).
  2. CVM — Instrução sobre Investidor Qualificado — critérios de enquadramento como investidor qualificado no Brasil.
  3. Lei Complementar nº 155/2016 — marco legal do investimento-anjo no Brasil.
  4. Resolução CVM nº 88, de 27/04/2022 — regulação do equity crowdfunding no Brasil.
  5. CVM — Notícia sobre a Resolução CVM 88 — comunicado oficial sobre as novas regras do crowdfunding de investimento.
  6. EqSeed — Página institucional — dados sobre contas abertas, capital investido, ofertas concluídas e retorno médio de exits.
  7. Captable — Página institucional — dados sobre capital investido, investidores ativos e captações concluídas; informações sobre o Marketplace e o Pool Bossa.
  8. MB Startups / Mercado Bitcoin — informações sobre a plataforma de crowdfunding com tokenização blockchain do Mercado Bitcoin.
  9. Anjos do Brasil — rede de investidores-anjo no Brasil.
  10. Banco do Brasil — BB Startups — programa de conexão entre startups e o ecossistema do Banco do Brasil.

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